segunda-feira, 14 de julho de 2008

bandeirantes blues



Maravilhas ahead, aumenta o som, amor
Aqui vamos nós rumo ao início
Disco em contrário sentido
Para ouvirmos a frase cifrada
Tocada em suspiro sustenido

Keep your eyes on the road, baby
Músicas para rodar na estrada
Corações acelerados, olhos colados
Nas faixas, no asfalto, no nada

Pisa que a noite é clara, honey
A lua é crescente
Não há em toda a pista
Rife de motor mais potente

Avança, baby, milhas e milhas adiante
Quilômetros que viram números
Pedras que nos viram passar
Cai a chuva em rajadas de dimante

Miles Ahead!
Explodir os pistões, derreter as velas
Decolar no rumo do céu
Aumenta o som, baby,
A estrada agora é nossa,
A estrada é feita de mel.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

you don´t know what love is



_Ora, ora quanto tempo...
_Como vai John?
_Bem, e você?
_Indo.
_Você sumiu, me deixou preso na caixa...
_Pois é, nem me fale. Não foi sem dor no coração, John, acredite.
_O que está rolando?
_Mudança, John, mudança...
_Hum... Sei. Mas agora que você abriu a caixa, é melhor colocar o Duke e a Billie para respirar um pouco, ela tem se queixado de opressão, melancolia... E o Duke, você sabe, sempre gostou de luz, detesta ficar amassado.
_Tudo bem, mas por enquanto gostaria apenas de ouvir suas baladas.
_Você se amarra neste meu disco, né?
_Dá para sacar?
_Claro, você tem dois!
_É que, se um dia os sulcos de um ficarem totalmente gastos, eu tenho o outro.
_Isso é de uma bobagem tremenda. Ter, ter... Deveria ouvir mais meu A Love Supreme para ver se consegue se desprender um pouco. O amor é antes de tudo desapego. A obsessão é a cruz dos condenados que querem ter a tudo e a todos.
_Isto está um pouco pesado, igual a caixa de discos... Vou mudar de assunto, se importa? Como vai o Miles?
_Carregando sua cruz, com saudade de seus carrões, de suas mulheres, de seus ternos italianos, dos óculos, do champanhe. Dentro da caixa não tem dessas coisas. O Miles sempre teve medo de sofrer, por isso, sofreu muito. Tinha medo de sentir dor.
_E você, o que fazia com a dor?
_Em alguns casos, tocava baladas.

ps: faixa de cima: "It´s Easy to Remember"; de baixo: "Say It (Over and Over Again)"

quarta-feira, 9 de julho de 2008

grandes encontros

Uma vez, eu estava assistindo aula de alguma coisa chata que eu não lembro mais o que era no terceiro colegial em Ribeirão Preto. Aí, o professor de literatura pediu licença e entrou na classe com um amigo, um sujeito de bigode, vestindo jeans, camiseta branca de mangas compridas e tênis marinho de lona, bolsa de couro a tiracolo:
_Pessoal, este aqui é um colega, professor de cursinho do Paraná, ele vai lançar um livro hoje...
Eu não fui ao lançamento. Meus interesses naquela época basicamente se resumiam a garotas, futebol e cerveja. Talvez por isso, no final da noite passei no bar onde o professor de literatura e o amigo dele tomavam uns drinques.
_Ô garoto, chega aqui, senta aí_, disse o mestre assim que me avistou.
Pedi um chope e fiquei olhando a dupla tomar vodka como se fosse água. Matei minha bebida, dei umas risadas e caí fora. Carregando eternamente a glória de já ter entornado umas com o grande Paulo Leminski:

o velho leon e natália em coyoacán

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás de outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

domingo, 6 de julho de 2008

sempre aos domingos

Lisboa, 14 de Março de 1916


Meu querido Sá-Carneiro:
Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental _uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto _que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurda da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias de alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em que a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia 14 de Março, às 9 horas e 10 da noite, minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu seqüestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos onde pedem; estão enrolados muito alto; e assim nem a idéia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do “Marinheiro” ardem-me os olhos de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena _cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde das folhas.
Foi por isso que o príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demora a copiá-la à máquina para inserir esgares dela no “Livro do Desassossego”. Mas isso nada roubará a sinceridade com que a escrevo, nem a dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferente destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abraços do seu, sempre seu muito seu

FERNANDO PESSOA

PS: Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características.
Você acha-me razão, não é verdade?

sexta-feira, 4 de julho de 2008

granero existencial

As mudanças costumam ser
muito difíceis para quem
ainda houve discos de vinil
e carrega livros à granel

quinta-feira, 3 de julho de 2008

doctor freud

O homem no labirinto
pergunta ao minotauro-menino:
_Onde vai dar este caminho?
_Me dê sua mão. Eu te levo ao seu destino.

terça-feira, 1 de julho de 2008